sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Joaquim Barbosa, o mouro de Paracatu

Joaquim Barbosa, indicado por Lula ao Supremo e condecorado pelo PSDB mineiro de Aécio Neves e Anastasia, representa os descaminhos políticos tomados pela Justiça do país ao longo dos séculos. Mas coube e ainda caberá a ele mesmo a escolha do papel pelo qual a sua atuação será conhecida nessa história. Farsa ou épico?

por Marcelo Degrazia



Muitos de nós chegaram às lágrimas quando o ministro Joaquim Barbosa foi empossado na presidência do STF. Não foram lágrimas inteiramente ingênuas, pois muitos também já sabiam: os indivíduos, especialmente se de camadas sociais historicamente exploradas e oprimidas, têm pouco espaço na bolha tóxica do nosso Judiciário. Foram lágrimas gêmeas das empoçadas na eleição de Barack Obama, pois lá também não víamos como a simples eleição para o Relações Públicas mais proeminente do capitalismo pudesse alterar de modo significativo as relações de força da sociedade. O mensalão e a crise financeira de 2008 comprovaram isso.

Em todo caso, lá como aqui, a cor da pele já fez toda a diferença. Os eleitores de Obama e de Lula avivaram o fogo da esperança, e com ou sem lágrimas qualquer um via que, do ponto de vista social e cultural, o novo século aplicava um golpe de morte no que ainda resta das teorias raciais (e racistas) do século XIX e dos preconceitos étnicos entranhados em nossas sociedades de passado escravocrata. 


O valor simbólico das duas posses transcendeu o papel e as funções dos cargos, para se constituir numa espécie de alegoria concreta que marca importantes avanços sociais nas Américas. Sim, é possível...

Mas o julgamento do mensalão, em todo caso, traz a possibilidade de desdobramentos interessantes para as eleições de 2014. Joaquim Barbosa, condecorado em Ouro Preto com a Medalha da Inconfidência, em 21 de abril de 2013, terá a mesma convicção para colocar na cadeia os “mensaleiros” do PSDB de Aécio Neves? Mesmo que não haja provas materiais do “crime”? Porque foi Neves, juntamente com o governador de Minas, Antonio Anastasia, quem concedeu a referida Medalha ao ministro relator do "mensalão" e presidente do STF. Apenas coincidência?

Barbosa deixará o tribunal antes do desfecho do "mensalão" do PSDB para evitar o constrangimento ou para se candidatar a cargo eletivo e faturar o suposto prestígio por ter jogado na cadeia quadros importantes do PT? Adotará dessa vez medidas protelatórias até sua aposentadoria (fará 70 anos em 2014, e, caso não deixe o cargo, será aposentado compulsoriamente)? Largará a batata quente nas mãos dos outros ministros do Supremo?

No caso de reviravolta dos “mensalões”, comprovada a tese de financiamento ilícito de campanha sem uso de dinheiro público, 
a mídia conservadora, afinal convencida de que sua estratégia hollywoodiana de final feliz foi no entanto politicamente infeliz, passará a hostilizá-lo ao ponto de inviabilizar sua candidatura e até mesmo a colação de sua figura à imagem da oposição? Ou continuará a empurrar tudo com novas barrigadas, ao ritmo do “não tem tu / vai tu mesmo”, para barrar a hoje provável vitória de Dilma?

Luzes para o “mensalão” do PSDB

De toda maneira, a situação do presidente atual do STF tende a piorar, salvo se estivermos mesmo diante de um autêntico vingador da pátria, embora nada indique isso. Se o julgamento do "mensalão" mineiro de fato ocorrer no próximo ano, trará prejuízos irreparáveis à candidatura do PSDB à presidência da República. A princípio, Barbosa terá duas opções: seguir adiante com o processo e aferroar feito o escorpião da lenda quem lhe estendeu a mão em Ouro Preto (como fez com José Dirceu, que intercedeu a favor de sua indicação para o Supremo junto a Lula), ou pedir afastamento para concorrer diretamente ou colar em alguma candidatura como vice.

Se for para o PSDB, o juízo do "mensalão" Valeriano geneticamente modificado do PT cairá sob suspeita ainda maior, sua atuação no julgamento parecerá então com mais nitidez o que já parece hoje mesmo: uma grande farsa. E isso atiçará os leões da moralidade. Caso deixe o cargo atual para concorrer por outro partido, lembrará a Aécio e seus correligionários o samba de Luiz Ayrão, que, adaptado ao roteiro do nosso Otelo da velha justiça apenas retributiva (e vingativa), ficaria mais ou menos assim: “Se ele fez com ele vai fazer comigo / e vai fazer comigo exatamente igual / ele é um ministro sensacional!”.

Mas e se Barbosa, de acordo com uma aplicação muito particular da Teoria do Medalhão (não o da Inconfidência, mas o do conto de Machado de Assis, com os conselhos inescrupuloso do pai para o filho Janjão, para este ascender socialmente sem confrontar os poderoso), pois e se ele fugir ao roteiro e colar-se ao papel de paladino da justiça e empenhar-se ao máximo pela condenação dos "mensaleiros" geneticamente originais do PSDB? Afinal, são notórios os casos de personagens que fogem ao controle de seus criadores e acabam produzindo monstruosidades verdadeiramente frankensteinianas.

Nesse caso, poderá estar servindo uma nova ração bastante vitaminada aos leões sempre esfomeados por maminhas e fraldinhas de corruptos. O oferecimento de apenas um bode expiatório, por exemplo, trará ao país o cenário ideal para o discurso de confirmação de um novo paradigma jurídico e político para a nação. Que será salva! E Joaquinzão, o salvador da pátria! A mídia abandonaria o PSDB em nome da nova tira de aventuras da sessão da tarde: Joaquim Barbosa e Os Caçadores da Urna Perdida.

Nessa hipótese, terá azedado de vez o leite da oposição peessedebista e as tintas e pixels de alguns propagandistas e piratas da moral de cueca, que se surpreenderão mais perdidos do que cães na procissão dos Navegantes. Crescerá o mito do Barbosão, herói da nossa gente, o Macunaíma pós-moderno sem nenhum caráter, justiceiro da moral pública, o Novo Tiradentes, Joaquinzão das Alterosas, o ídolo dos sem-partido e mais uma chusma de blablablás.

Mas e se ele, caso continue no cargo, vier a se revelar um novo engavetador-mor da República, um procrastinador-mor, um obstruidor-mor, um reizinho-mor e assim se constituir também na mor vergonha jurídica desta república de bacharéis? Nesse caso, a tese do golpe White Bloc de Brancaleone e seu incrível exército ficará mais do que comprovada, e a turma da propaganda e seus patrões, além de largarem Barbosa no meio do caminho, não terão para festejar nada além do que uma vitória de Pirro, pois nem um Coliseu lotado teria carne suficiente para alimentar os animais das jubas douradas.

Nesse caso, então, quem dará paletas e traseiros aos leões? Pois com tal cenário, nem uma legião romana impediria a vitória do PT e seus aliados, quem sabe se até no primeiro turno.

O PSDB na forca mineira

Mas, em caso de também ocorrer a prisão dos "mensaleiros" do PSDB – o céu sem limites do Barbosa mítico, mas com o preço de este não poder concorrer nas próximas eleições, pois não teria tempo hábil para se inscrever em algum partido –, a mídia conservadora, contrafeita, mas de olho bem vivo na audiência, poderá afinal dizer que nunca antes na história deste país um governo terá permitido (e até silenciado) a prisão de poderosos aliados, como nos casos de Dirceu, Genuíno e Delúbio.

Esse quadro, como nas sequências hollywoodianas em que os bandidos finalmente vão para trás das grades, encherá de orgulho cívico os corações dos eleitores, que terão todas as razões para acreditar no futuro do país. Então, da cova dos leões saciados será possível ouvir o tom de rugido dos otimistas: que outro governo teria permitido que um bando de corruptos tão graúdos fosse quarar na prisão?

Seria o pior cenário para os golpistas de todo gênero.

Com os barões do ouro, da borracha e do café isso não aconteceu; com os barões da indústria e das finanças o máximo foi defenestrar Collor e sua pretensão infantil de se eleger e governar sem a mercê do Congresso e das forças conservadoras que este representava (e ainda representa) – mas sem que ninguém fosse ver o sol nascer quadrado, claro.

Esse efeito colateral será o que de melhor produzirá o amargo remédio dessa longa Marcha da Família com Deus pela Liberdade III. A Série teve no papel de vilão atores históricos e imensamente populares: Vargas, Jango e Lula.

Talvez esse cenário explique o silêncio de Lula e do atual governo diante da queda de quadros históricos, tão representativos das últimas lutas do país pela democracia, em que se ouve apenas a trilha um tanto enfadonha com a voz cheia de um Ivan Lins anos 70: “Cai o rei de ouro, cai o rei de espada / cai... não fica nada!”

Nem videntes nem cartomantes seriam capazes de prever um enquadramento como esse, ainda mais com quedas de quadro em quadro do tempo da última ditadura militar e sua agonizante queda em câmera lenta, mas em plano invertido... O silêncio nada inocente dos pragmáticos estaria sacrificando os anéis em nome dos votos de 2014.

Sem dúvida alguma, até Dirceu e seus companheiros de Papuda apoiariam isso. Lá adiante a gente dá uma virada no roteiro, devem estar pensando dentro e fora das barras. Pois a anulação do processo, confirmada a nova derrota da oposição em 2014 e a ineficácia do remédio, surgiria feito um alvissareiro grito de terra à vista para ambos os lados.

Até mesmo uma improvável derrota do PT e aliados poderia estar sendo vista como oportunidade de provar um magnânimo indulto do novo governo de conciliação. Ou pior de tudo: uns e outros, conforme a disposição geniosa do nosso Otelo, poderiam buscar um arreglo jurídico ao estilo Al Capone, na velhíssima tradição de dispensar tratamento de gângster aos assuntos da nação, mais uma vez esganada feito uma Desdêmona rediviva.

Cai o paninho

Que terá a grande mídia a dizer de toda essa comédia, quando perceber a direção dos primeiros passos do tribunal do tempo (o revisionismo da nova e midiática opinião pública)? Com a velocidade informativa e horizontal de hoje, ela certamente não precisará de mais 50 anos (meio século!) para compreender o que clamam os rugidos das ruas. E o tempo, por ser a última, é a instância da sentença inapelável, depois não adiantam ranger de dentes, pedidos de desculpa nem embargos infringentes.

Já o veredito final sobre a atuação de Joaquim Barbosa no papel de relator e/ou presidente dos “mensalões”, ainda depende, curiosamente, de seu próprio talento. Pois terá que sustentar o mesmo nível de mise-en-scène para não passar a imagem de uma Têmis nada mitológica, enceguecida devido a uma subjetividade parcializada por interesses alheios à Justiça. Se continuar sem a venda nos olhos, corre o risco de colocar o projeto pessoal da Mosca Azul à frente dos relevantes interesses públicos da... Justiça.

Mas se quiser receber das mãos da história o Oscar da glória – com rima e tudo, pois essa peça é popular – terá ao menos que trocar o grau dos óculos ou optar por lentes de contato mais atuais, esteticamente neutras, caso não queira devolver o lenço aos olhos da Justiça. Vamos ver os próximos capítulos.

O julgamento do "mensalão" foi o preço pago pelo PT e suas alianças, por terem vencido nas urnas e não terem promovido a reforma política esperada; os movimentos sociais iniciados em junho de 2013 são respostas a essa e a outras mudanças prometidas e não realizadas desde a redemocratização eleitoral do país.

O governo e seus aliados precisam agora de toda sua inteligência para criar alianças que afinal garantam as mudanças fundamentais de que o país tanto necessita, sob pena de ser vitimado logo adiante com seu eleitorado nas urnas, o que fatalmente representaria um desastroso retrocesso político e social para a nação. Mas antes será preciso compreender melhor o seu papel nessa história toda. Afinal, a vida não é Hollywood, nem com filtro.



Um comentário:

  1. Farsa ou épico? Boa pergunta! seu texto é quase profético. Digo quase porque embora ele tenha saído o futuro ainda não chegou. Eu já tenho minha resposta mas vamos esperar pra ver.

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